domingo, 16 de janeiro de 2011

Era uma vez...para sempre.

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Era uma vez uma humana, que não tinha assim tanta certeza de o ser.
Era uma vez um humano, que tinha a certeza de o ser a um nível superior e que vivia como se nunca fosse morrer.
Ela vivia sempre como se fosse morrer em breve, era aliás esse desejo transfigurado em crença que a impulsionava todos os dias a ir vivendo..a não se importar assim tanto de existir..por saber que podia sempre morrer..em breve..e numa brevidade de tempo.
Ele pelo contrário não se importava de não viver a maior parte do tempo, já que viveria tanto tempo.

Embora sendo óbvio que em nada se assemelhavam estes dois sentidos de se ser no estar, eles tinham um prazer em comum ..dormir.. a ele porque lhe aumentava a vida .. a ela por que lha diminuía.
Um dia encontraram-se num sonho..e interessaram-se um pelo outro. Ele porque, como ser humano superior, podia usar-se dos seus dons ilusionistas e malabares para preencher de vida uma existência (como quando se dá realeza a uma marioneta, ou a um fantoche)..e ela porque suspeitava poder assim conseguir viver encaixada na forma humana, forma essa em que tinham nascidos os seus atributos e dimensões. E assim começaram a gostar um do outro..em jeito de simbiose.

Os dois gostavam também dos mesmos cenários visio-sensoriais: montes, mares, rios, lagoas, sapos, céus, lua, estrelas, galáxias, universos, vulcões, chuvas, tempestades, árvores, e às vezes sol e flores. Ela porque lhe diluíam o seu sistema físico-químico numa fluida e envolvente união fractal e eteriana, pelo jogo de espelhos labirínticos onde do nada surge tudo e o tudo se torna nada, pela dupla negação de si mesma a afirmá-la. Ele por solipsismo deliberado, fuga , capricho, ou por desordens do foro do efeito espelho.

Ela queria sempre alcançar e permanecer no alto, de onde pudesse olhar o mundo, que no fundo desprezava. Isso sempre o irritou.
Ele tinha mais do que provas de que ela era uma humana, mais do mesmo. Até ao dia em que ele nunca mais a suportou. (Pode alguém não ser quem é?)
Ele, como ser humano superior, sempre queria estar envolvido no mundo. Para tal utilizava disfarces inúmeros em diferentes espaços e tempos, e usava-se de um espelho de modo a que em todo o seu reflexo pudesse ver a humanidade com clareza. Afinal para ser maior que os humanos ele tinha que sabe-los. Sempre que novas imagens surgiam, novas acusações daquelas emergiam, tornando-se ele desta forma um ser superior. Isso sempre a irritou. Ele negava-se em forma de admissão e afirmava-se em forma de negação. Até ao dia em que ela percebeu que sempre que ele abominava um reflexo se estava a denunciar a si mesmo. Dia esse em que ela o apanhou na sua teia de contradições: ela percebeu que em cada mentira se descobria uma verdade, e que em cada verdade se escondia uma mentira.
Ela tinha mais do que provas de que ele era um humano, mais do mesmo. Até ao dia em que ela nunca mais o suportou. (Pode alguém ser quem não é?)

A natureza dos seus desassossegos denunciou-os.

Tudo não tinha passado então de uma falsa harmonia. Falsa harmonia essa que se metamorfoseou numa insustentável ilusão..assim que se aperceberam de que ele não podia ser um ser humano superior, e de que ela não podia não ser uma humana.
Travaram entre eles uma guerra a fogo aberto, e que sangrenta guerra! Entre os estridentes e grotescos grunhidos inaudia-se que se acusavam mutuamente de terem sido enganados.

O choque passou .. mas os estilhaços perduraram no espaço do tempo .. que no fim reserva sempre mais tempo .. para as partículas se estenderem infinitamente.

Ele continuou o resto da vida no seu infortúnio de semi-deus falhado.
Ela continuou o resto da sua existência em tentativas falhadas de viver como uma humana.

Até ao dia em que ela morreu.
Até ao dia em que ele morreu.

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